Quanto pagamos de Imposto:

Visite o blog: NOTÍCIAS PONTO COM

Visite o blog:  NOTÍCIAS PONTO COM
SOMENTE CLICAR NO BANNER -- JORNAL PONTO COM **

PENSE NISSO:

PENSE NISSO:

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O papel da liberdade no cálculo do Índice de Desenvolvimento Humano


“Se eu lhe perguntar: ‘Como está sua vida?’ Você vai me responder: ‘137’?” Foi assim que o indiano Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia de 1998, tentou explicar a mim e à repórter Camila Nóbrega, quando o entrevistamos para o “Razão Social”*, em abril de 2012, sua crítica ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que ele próprio criara. Lembrei-me desse momento quando li, nesta terça-feira (25), notícia sobre o lançamento do Atlas do Desenvolvimento Humano nas Regiões Metropolitanas Brasileiras. Sen não pensou sozinho na criação do índice. Foi em conversa com o amigo paquistanês Mahbub ul Haq que ambos descobriram um incômodo comum com o Produto Interno Bruto (PIB), até então única medição do progresso econômico.

“Achamos que avaliar pela renda de um indivíduo pode ser um mau reflexo sobre a liberdade dele. Duas pessoas podem ter a mesma renda, mas se uma tem uma limitação e precisa de hemodiálise, por exemplo, a necessidade da renda é diferente”, disse ele.

E assim, logo nos primeiros minutos de nossa entrevista, ele nos presenteara com uma reflexão profunda sobre seus estudos e pronunciara a palavra que sempre norteou seu pensamento econômico: liberdade. Em “Desenvolvimento como liberdade”, livro que escreveu um ano depois de ser laureado (aqui no Brasil foi editado em 2009 pela Companhia das Letras), ele diz, claramente: “Para combater os problemas que enfrentamos hoje, temos de considerar a liberdade individual um comprometimento social. A expansão da liberdade é o principal fim e o principal meio para o desenvolvimento”.

Com esse pensamento, que expande tão bem em seu livro, o economista, de fato, não conseguia ver razão num único medidor econômico. Em conversa com o paquistanês, ambos concluíram que seria preciso uma abordagem maior de desenvolvimento humano, um novo índice onde entrassem a mortalidade, a educação, a sensação de segurança e insegurança dos indivíduos no mundo. Mas Amartya se deixou levar pela praticidade do amigo, que o convenceu a introduzir a renda e apenas esses aspectos para constituir a medição, alegando que dessa forma seria mais fácil de ser absorvido pelas pessoas em geral, pela mídia inclusive.

“Ficamos com longevidade, educação e renda per capita, mas eu poderia incluir pelo menos outros dez fatores. Mas conseguimos o que queríamos e saímos no “Le Monde”, “New York Times”, “The Guardian”, disse Amartya na entrevista.

A ideia, no fim das contas, era chamar a atenção para a reduzida aplicação do PIB. Amartya Sen e Mahbub ul Haq queriam que o assunto fosse discutido, que se pensasse numa outra forma de medir o progresso levando em conta também a qualidade de vida dos indivíduos.

“Mas não podemos ser ingênuos. Esse índice (o IDH) é uma forma muito bruta de se representar qualquer coisa. Há de se reconhecer que é incompleto”, disse ele.

Quando nos deu essa entrevista, Amartya Sen já estava trabalhando, junto com Joseph E. Stiglitz e Jean-Paul Fitoussi, a pedido do ex-presidente francês Nicholas Sarkozy, num outro medidor de riquezas que pudesse substituir o PIB. O relatório desse estudo, que se chamou “Comissão Sarkozy”, foi concluído em 2009 e no ano seguinte foi publicado em livro, “Mis-measuring our lives”, ainda sem tradução no Brasil (veja aqui).

Para os economistas e pesquisadores tradicionais, alinhados com o desenvolvimento do jeito que está posto, Amartya Sen e outros estudiosos incomodados com o PIB são pouco práticos. Para a linha de pensamento mais ortodoxa, o PIB como foi criado na década de 30, “um conjunto de bens e serviços produzidos em um país”, serve como uma bússola, da qual a humanidade não pode abrir mão tão cedo.

Mas o próprio Atlas divulgado ontem mostra que medir o desenvolvimento levando em conta só a renda dos indivíduos pode revelar alguma discordância até na hora de cruzar os resultados. Segundo os dados obtidos pelos pesquisadores do Ipea, do Pnud e da Fundação João Pinheiro, “embora São Paulo tenha a maior renda média mensal, Brasília ocupa o primeiro lugar no IDHM em padrão de vida porque o índice é medido pela soma da renda média de todos os moradores”.

Bem, mas toda essa história tem um final feliz. Talvez por reconhecer como apropriadas as instigantes reflexões de um dos criadores do IDH, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), segundo o texto que introduz a apresentação dos dados do Atlas, encoraja os países a desenharem seus próprios índices de desenvolvimento, adequando-os às suas necessidades. Aqui no Brasil isso é feito desde 1998, e são utilizados, além dos indicadores básicos propostos inicialmente pelos dois economistas – longevidade, educação e renda – mais tantos outros.

“O crescimento econômico de uma sociedade não se traduz automaticamente em qualidade de vida e, muitas vezes, o que se observa é o reforço das desigualdades. É preciso que este crescimento seja transformado em conquistas concretas para as pessoas: crianças mais saudáveis, educação universal e de qualidade, ampliação da participação política dos cidadãos, preservação ambiental, equilíbrio da renda e das oportunidades entre todas as pessoas, maior liberdade de expressão, entre outras. Assim, ao colocar as pessoas no centro da análise do bem estar, a abordagem do desenvolvimento humano redefine a maneira como pensamos sobre e lidamos com o desenvolvimento – internacional, nacional e localmente”, diz o texto que introduz o Atlas.

E o resultado geral da pesquisa, feita com base em dados dos Centros Demográficos do IBGE, retrata aquilo de que já sabemos. Do início do século para cá, houve uma melhora acentuada nos níveis de desenvolvimento humano da população. Mas a desigualdade continua, em níveis significativos. Infelizmente, não é muito diferente do cenário mundial.

E onde fica a liberdade, conceito tão estimado por Amartya Sen? Nas escolhas, na capacidade de escolher, afirmam os estudiosos que agruparam os dados para o Mapa. Se alguém não aprende a ler e a escrever, terá restritas condições de participar do sistema e será excluído. Se adoece e não recebe tratamento adequado, também ficará à margem. É disso que se trata. “Substituir o domínio das circunstâncias e do acaso sobre os indivíduos pelo domínio dos indivíduos sobre o acaso e as circunstâncias”, escreve o economista em seu livro, recapitulando pensamentos da obra de Karl Marx.

Há liberdades que não entraram no IDH, revelou-nos Amartya Sen durante a entrevista. O livro dele lista algumas: liberdade de participação política, de informação, de imprensa, liberdade do contrato de trabalho em oposição à escravidão ou à exclusão forçada do mercado de trabalho, liberdade de participar do intercâmbio econômico. Para captar essas liberdades, no entanto, não dá para nos concentrarmos tanto em índices e deixarmos de lado a relação com o outro, a comunicação entre as pessoas, afirma.

“Um índice é o antipensamento, a antipoesia”, disse o Prêmio Nobel de Economia.



* Suplemento sobre sustentabilidade que foi editado no jornal “O Globo” de 2003 a 2012.

http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/o-papel-da-liberdade-no-calculo-do-indice-de-desenvolvimento-humano.html

Pequenas soluções para grandes problemas: o desafio da humanidade





Neste fim de semana estive num lugar que me fez refletir sobre a capacidade de o homem criar possibilidades bem singulares para viver (não sobreviver) num mundo que já está sofrendo os revezes da escassez de recursos. Na comunidade onde me hospedei, na Região Serrana do Rio de Janeiro, ainda um território cercado de plantas e bichos, o respeito com o ambiente do entorno se reflete no alimento que se come – só vegetais, frutas, cereais – no cuidado com os animais que fornecem ovos e leite, nas plantações. E o resultado disso é o que a natureza dá em troca e que se traduz em saúde para as pessoas que ali estão. Uma relação baseada no respeito.

Na volta de lá, resolvi pegar a Avenida Brasil. O primeiro choque com a civilização urbana é sentido logo, pelo barulho. Já repararam como, ao sair de um lugar mais protegido, nossos ouvidos custam a se acostumar à agressão provocada pela zoeira de carros?Passando pelo território que foi tomado por viciados em crack, não vi mais por ali os pobres farrapos humanos em que essas pessoas se transformam, mas está claro que, se não tiver a força do estado para dar limites, eles vão retornar. É que o entorno está mal cuidado, não ajuda em nada para criar uma nova forma de ocupação. 

Andando mais um pouco, foi hora de enfrentar o engarrafamento provocado pela quantidade de pessoas que, legitimamente, querem assistir ao acender das luzes de uma árvore de Natal gigante, instalada na Lagoa, que já se tornou símbolo dessa época do ano. Mas o desconforto que se enfrenta para chegar lá é de tirar o ânimo.

Pela primeira vez na história da humanidade, segundo o site da ONU, mais da metade da população mundial vive em centros urbanos. E é nos países mais desenvolvidos e nos da América Latina que as cidades atraem mais as pessoas. Levando em conta os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados nesta segunda-feira (1º), aqui no Brasil estamos vivendo mais. Vamos ter mesmo que criar meios para que a convivência nas cidades não fique mais desconfortável à medida que o tempo passa. E à medida que a Terra aquece...

Hortas
Nesse sentido, as hortas urbanas são um alento. Aqui perto de casa mesmo está florescendo uma, com a solidariedade dos vizinhos. É um jeito bem saudável de ocupar o espaço de terrenos baldios sem criar conflitos, mas gerenciando relações. O alemão Manfred Bert, um paisagista, liderou o movimento, reuniu alguns moradores mais ativistas e tem dado certo. De vez em quando, dentro das minhas possibilidades de tempo, passo por lá e deixo um lixo orgânico, mexo numa terrinha. Essas microssoluções têm, para mim, papel fundamental num cotidiano de macroproblemas.

Mas há quem esteja tentando reunir as microssoluções num único espaço – o que pode resultar em troca de informações e ser muito bom para replicar exemplos. Em Sydney, na Austrália, aconteceu de 12 a 19 de novembro um Congresso Mundial de Parques, que reuniu mais de seis mil participantes de 170 países e lançou o documento "The Promise of Sydney", que destaca a necessidade de revigorar esforços para proteger áreas naturais (veja, em inglês) . O subtítulo do encontro é motivador: "Os parques, o planeta e nós: fontes de inspiração e de soluções".

Pensei sobre o encontro australiano nesse fim de semana que passei numa área protegida não pelo estado, mas por pessoas. Para os especialistas que ficaram reunidos em Sydney, a governança é o ponto de partida, que vai nos levar às soluções pretendidas. Mas não é qualquer governança. O documento final alerta para o fato de que a prioridade não está em “quem toma as decisões”, mas sim em “como se tomam as decisões”.

“Falamos de qualidade de governança (ou boa governança) quando se tomam decisões de forma legítima, justa, com visão, responsabilidade e prestação de contas e respeito de todos os direitos”, diz o documento escrito ao final do encontro.

Parece bem de acordo uma discussão como essa, sobretudo porque o encontro foi no país que tem um primeiro-ministro (Tony Abbott) polêmico por não se mostrar interessado em colaborar globalmente em um acordo entre países para baixar as emissões. 

Uma dimensão da boa governança é a diversidade, mostra o documento. Um sistema de áreas protegidas diverso inclui uma ampla gama de tipos de governança, e é preciso chamar para a mesa de negociação os povos indígenas, tradicionais, comunidades locais, entidades privadas, governos nacionais e locais.

No texto final, os congressistas se comprometem a examinar exemplos de diversidade, qualidade e vitalidade de governança de áreas protegidas no mundo, ilustrando casos positivos e emblemáticos que possam contribuir para a execução dos compromissos firmados em Aichi, no Japão, uma das ferramentas daConvenção Mundial sobre a Diversidade Biológica (CDB) firmada em 1992 (veja aqui) .

Nesse sentido, o Brasil já está um passo adiante. No próximo fim de semana, os habitantes do Arquipélago de Bailique, conjunto de oito ilhas na região amazônica, estarão reunidos novamente para continuar o duro trabalho que vai resultar num Protocolo Comunitário do local. A iniciativa é da rede Grupo de Trabalho Amazônico e o objetivo é, justamente, seguir o texto da CDB e criar uma governança local para organizar uma forma sustentável de exploração dos seus próprios recursos. Em conversa com o presidente do GTA, Rubens Gomes, ele me disse que está impressionado com o nível de participação das unidades familiares do Bailique.

Leio no site do Congresso em Sydney que um dos projetos apresentados pelos participantes é o de capacitar a comunidade das Ilhas Salomão, no Pacífico, no sentido de ajudá-la a resgatar sua cultura e se tornar menos vulnerável às investidas do mercado corporativo. Algo bem parecido com o que fazem os técnicos do GTA no Bailique.

Outro exemplo bom que vem aqui das terras brasileiras é o Seminário de Manejo Florestal Comunitário e de Pequena Escala que aconteceu em setembro em Lábrea, na região Amazônica (veja aqui), promovido pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB).

São iniciativas que podem dar certo. E seguimos apostando também na reunião que começa nesta segunda em Lima que tem como objetivo principal traçar rumos para se conseguir um acordo global em Paris no ano que vem. Não gosto muito dessa expectativa com um tempo no futuro que parece desfocar o olhar do presente. Mas é assim que são feitas as negociações globais.

Bom mesmo é pensar que cada vez mais teremos iniciativas locais de sucesso e que o mega-acordo só vai se juntar para dar frutos ainda melhores.



Fotos:Horta urbana (Fernando Pilatos/TV Globo)Parque do Ibirapuera (Leonardo Neiva/G1)

http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/pequenas-solucoes-para-grandes-problemas-o-desafio-da-humanidade.html

Pesquisa revela que 14% dos brasileiros com mais de 70 anos continuam trabalhando

O Brasil envelhece, a natalidade diminui e a expectativa de vida dos brasileiros aumenta. De um lado cresce a demanda da Previdência; de outro, diminui a população trabalhadora. O fato é que os novos idosos se distanciam cada vez mais do modelo tradicional. Tornam-se empreendedores, aceitam desafios, entram para a universidade, mudam de profissão e aproveitam cada vez mais a vida. Mesmo assim, representam um ônus do ponto de vista do déficit previdenciário para o qual a sociedade precisa se preparar.
A pesquisa Longevidade: a perspectiva da longevidade e o impacto na sociedade, conduzida pela Zhuo Consultoria e Giacometti Comunicação, aponta que 14% dos brasileiros acima de 70 anos permanecem trabalhando contra 86% que não. Em São Paulo está o maior índice de trabalhadores com mais de 70 anos, 20%; os menores índices estão no Recife e em Porto Alegre, com 7% cada. A análise qualitativa mostra que 100% desses trabalhadores estão felizes com a atividade; 60% afirmam gostar do que fazem; 53% acreditam que são bem remunerados; e 13% apontam que o fato de conhecerem pessoas diferentes contribui para o nível de satisfação.
Segundo o coordenador e idealizador da pesquisa Dennis Giacometti, sócio-presidente da Giacometti Comunicação e da Zhuo – Gestão, Inovação e Estratégia de Marca, o estudo é claro ao apontar a necessidade de se reinventar aos 60 anos. “Esse é um grande desafio não apenas do indivíduo como da sociedade. No Brasil, a taxa de 27% de analfabetos funcionais, com ênfase entre os idosos, faz com que o retorno ao ambiente corporativo fique comprometido, diferente do que ocorre em países orientais que já registram esse movimento”, analisa Giacometti, acrescentando que o estudo Longevidade se baseia na contribuição de diversas correntes do conhecimento humano – biotecnologia, neurotecnologia, nanotecnologia e medicina; estudiosos que defendem que uma criança nascida hoje pode viver até os 120 anos se tiver práticas saudáveis.
No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística(IBGE) sinaliza que em 2013 o grupo de idosos de 60 anos ou mais será maior que o de crianças de até 14 anos. Hoje, a principal fonte de rendimento dos maiores de 60 anos é a aposentadoria ou pensão – que equivale a 66,2%, chegando a 74,7% dessa população no grupo de maiores de 65 anos. “É imperativo uma política de incentivo e apoio para o desenvolvimento de uma terceira idade ativa não somente do ponto de vista econômico como social. Temos que trabalhar para formar uma nova geração de brasileiros que associa o trabalho à longevidade e à maior contribuição com a sociedade”, afirma o empresário que, aos 63 anos, pretende continuar na ativa por muitos anos.

Envelhecimento: trabalho & família

O que os entrevistados das diferentes classes sociais e locais do país imaginam fazer ao envelhecer? Segundo Giacometti, 55% e 47% dos entrevistados da classe A querem aproveitar a vida e viajar, respectivamente, contra 41% e 39% da classe B; e 45% e 40% da classe C. O trabalho é apontado por apenas 8% da classe A, 10% da B e 15% da C. Ajudar o próximo foi apontado por 8% da classe A, 10% da B e 15% da C. O fato de a classe C ter um índice tão alto quanto a classe A na perspectiva otimista de aproveitar a vida confirma a consolidação dos sonhos de consumo. “Em contrapartida são maiores os índices entre a classe C de ajuda ao próximo”, salienta o coordenador da pesquisa.
São raros os brasileiros que pretendem cuidar de si na velhice. A pesquisa mostra que 45% dos brasileiros esperam que os filhos cuidem deles na velhice, sendo que entre os entrevistados com idade entre 56 e 69 anos esse índice é de 48%. “O pensamento é de retribuição, já que cuidaram dos filhos. Somente 7% pensam em cuidados profissionais. Para os maiores de 70 anos, as pessoas mais importantes no mundo são os filhos (81%) e cônjuge (37%)”, afirma Giacometti.
Na percepção de Dennis Giacometti, o processo de envelhecimento da população traz oportunidades – seja de se reinventar profissionalmente, seja na criação de produtos e serviços voltados às reais necessidades da terceira idade. O publicitário aponta o setor da educação como especialmente promissor. “A criação de cursos de capacitação voltados à inovação na terceira idade é extremamente importante. A proposta é substituir os cursos convencionais, associados muitas vezes a simplesmente passar o tempo, por cursos de capacitação. Um país como o Brasil, que não pode prescindir da experiência de profissionais experimentados, deve incentivar o empreendedorismo entre os maiores de 60 anos”, afirma, acrescentando exemplos como o de Roberto Marinho, que fundou a TV Globo aos sessenta anos. “Há outros anônimos que têm apontado a tendência, como Edson Gambuggi, que aos 82 anos se formou em medicina; Emar Chaves, formado aos 83 anos em Arquitetura; e Chames Rolim, que se formou em Direito aos 97 anos.
Um outro setor apontado como promissor pelo executivo para empreender é a saúde. “Existe uma demanda por serviços ligados à melhoria da qualidade de vida do idoso, visando a longevidade. Exercícios adequados, fisioterapia, alimentação funcional. Ocorre que o foco hoje para empreender ficou nas agências de viagens e seus pacotes turísticos, ou seja, esse produto não representa ou cobre todas as demandas dessa nova terceira idade”, avalia.

Estudo “Longevidade”

Diversas correntes do conhecimento humano – biotecnologia, neurotecnologia, nanotecnologia e medicina – mostram que uma criança nascida hoje pode viver até os 120 anos se tiver práticas saudáveis. Com esse ponto de partida, o estudo Longevidade: a perspectiva da longevidade e o impacto na sociedade buscou averiguar o grau de consciência dos brasileiros sobre o aumento da expectativa de vida e o impacto dessa perspectiva na vida do cidadão. Coordenado pelo arquiteto e publicitário Dennis Giacometti, o estudo avaliou a relação não apenas de idosos mas de jovens, com com esse novo cenário trazido pela longevidade.
A pesquisa foi realizada em três fases. Na primeira, qualitativa, a equipe da Zhuo Consultoria e Giacometti Comunicação organizou dois grupos de diferentes áreas do conhecimento que debateram o tema “a nova longevidade”. O grupo foi composto por Carlos Frederico Lúcio, antropólogo; Dante Marcello Claramonte Gallian, historiador; Frank Usarski, cientista da religião; Jorge Feliz, economista político; Júlio César Pompeu, filósofo; Maria Lúcia Santaella Braga, semioticista; Pedro Luiz Ribeiro de Santi, psicanalista; Irene Gaeta Arcuri, psicóloga; João Toniolo Neto, geriatra; José Carlos Ferrigno, psicólogo; Júlio Sérgio Cardozo, contador e administrador; Roberto Carlos Burini, biomédico; e Shirlei Schnaider Borelli, dermatologista.
Na segunda fase, foram organizados seis minigrupos com pessoas de diferentes perfis da sociedade – homens e mulheres das classes A, B e C, com idades entre 20 anos e 60 anos – para pré-testar a estrutura de abordagem das questões referentes ao novo universo da longevidade. Na terceira fase e com todas as hipóteses em mãos, iniciou-se a pesquisa quantitativa em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife, em uma amostra composta por mil casos. Participaram pessoas com idades entre 20 anos e 70 anos, das classes A, B e C. O Critério Brasil foi o adotado.
O estudo Longevidade: a perspectiva da longevidade e o impacto na sociedade teve início em 2013 e assume a proposta de atualizações periódicas. A nova edição foi concluída em novembro de 2014. 


BANDA B

Só é possível preservar florestas se os povos tradicionais forem ouvidos


As florestas são o elemento mais importante para atenuar os efeitos dos gases nocivos que a atividade humana tem deixado na atmosfera. Tanto assim que, durante a Conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas – COP 15, realizada em Copenhague em 2009, o representante do Gabão, país da África, chegou a sugerir a criação de uma organização não governamental que se chamasse Aliança das Florestas, unindo países que têm esse trunfo em seu território. A iniciativa não foi para a frente.

Mas preservar as florestas deve ser um dos assuntos prioritários entre os líderes que estão reunidos até o dia 12 em Lima (COP 20), convocados pela ONU para debater sobre as mudanças climáticas.

O Brasil, nesse sentido, tem muito a dizer, já que a Amazônia é a região que tem a maior floresta tropical do mundo. Conversei sobre o assunto com Paulo Amaral (foto abaixo), pesquisador sênior do Imazon, instituto de pesquisa cuja missão é promover o desenvolvimento sustentável na Amazônia. A boa notícia que ele me deu é que, sim, há meios de manter a mata preservada e, ao mesmo tempo, extrair dela madeira e frutos. Mas, para atingir esse objetivo, é fundamental ouvir e negociar com os povos tradicionais, pessoas que, de verdade, vivem o dia a dia num dos maiores tesouros que a humanidade tem atualmente.

E mais: há 24 milhões de hectares de terra desmatada na região amazônica. Se esses espaços forem usados pelas empresas de agropecuária, desde que façam uma recuperação adequada, por muito tempo não se precisará avançar mais sobre a floresta para esse fim. Veja abaixo a entrevista:

Qual a proposta que vocês, ambientalistas, têm para preservar a Floresta Amazônica?
Paulo Amaral – O que nós estamos propondo é o Manejo Florestal Comunitário e Familiar. Que ele seja feito em áreas de concessão florestal que não envolva apenas as empresas, o setor privado, mas também as comunidades. Sem envolver áreas públicas, setor privado e áreas de comunidade, a conta não vai fechar.

O que você quer dizer com isso?
Paulo Amaral – Não teremos madeira suficiente para atender a demanda do setor florestal. Uma forma de organizar o setor florestal e combater a ilegalidade é conceder áreas para o setor privado sim, mas dando todo o poder de comando e controle ao estado e cobrar o cumprimento desses contratos. Dessa forma vai-se conseguir organizar mais o setor em termos até de logística. Por outro lado, tem que estimular a participação das comunidades.

Estou entendendo que essa parceria entre empresas e comunidades é possível desde que cada um possa trocar com o outro a sua expertise... É isso?
Paulo Amaral – Sim, e já existe essa experiência, por exemplo, na Guatemala. A comunidade vai sendo capacitada com oficinas, fazendo projetos-piloto de manejo florestal na região. O que precisa é dar escala para isso. Além disso, o fundamental é que as comunidades possam fechar contratos que não sejam desfavoráveis a elas. Aí é necessário que os órgãos fiscalizadores fiquem atentos.

O que é mais difícil nessa relação, quando as empresas entram para administrar as florestas?
Paulo Amaral – A questão que se precisa entender é que não existe planejamento e exploração de floresta a curto prazo. Para fazer um manejo sustentável tem que saber que o cenário será de, no mínimo, 25 anos. Não adianta fazer uma exploração desordenada no primeiro ano e deixar o problema para a comunidade resolver. Os preços também têm que ser aqueles praticados pelo mercado, senão é injusto.

Qual o conceito de manejo florestal sustentável?
Paulo Amaral – O manejo florestal envolve algumas etapas e a exploração de madeira é apenas uma etapa. Tem que fazer planejamento, tem que ter técnica para fazer a extração da árvore causando poucos danos para as que estão do lado. E aí, com esses cuidados, é preciso fazer um monitoramento para saber como essa floresta está se comportando. O manejo preconiza que só vai ser retirado, em cada ciclo, a quantidade de volume que aquela floresta é capaz de recompor.

Infelizmente, sabemos que esses cuidados nem sempre são tomados. O próprio Imazon detectou 244 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal em outubro. Qual o processo que leva a esse crime, esse desastre ecológico?
Paulo Amaral – Temos que ver que o princípio é que floresta tropical tem que ser úmida. Uma intervenção feita de maneira irresponsável, sem levar em conta o tamanho das árvores que são retiradas, sem levar em conta os danos que uma retirada feita de qualquer maneira podem causar às outras árvores, abre clareiras, deixa resíduos e seca essa floresta. Uma floresta seca fica mais suscetível a incêndios. E floresta que pega fogo uma vez tem muita chance de pegar fogo novamente. A exploração intensiva reduz a biomassa e ela tem mais dificuldade de se regenerar. Com isso, o prejuízo é total para todos porque o ciclo de corte, que era de 50 anos, passa a ser de 90 anos.

Bem, então o que você está me dizendo é que é possível ter lucro com florestas se houver cuidados na hora de explorá-la. Nós temos bons exemplos de exploração de baixo impacto aqui no Brasil?
Paulo Amaral – Sim, há projetos-piloto na reserva Verde Para Sempre, na reserva Chico Mendes, na Vila Jatobá (onde irmã Dorothy foi assassinada em 2005). Nesses lugares deu certo, a comunidade se capacitou. Mas tem que dar escala, ou seja, mais comunidades precisam ser treinadas. E o governo tem que olhar o pequeno como pequeno e o grande como grande. Fazendo assim, pode haver parceria entre empresas e comunidades.

Inserindo os povos tradicionais na negociação.
Paulo Amaral – Sim, claro! Qualquer discussão sobre Amazônia tem que entender que há várias Amazônias: a seca, a úmida, a do cerrado. E tem que levar em conta também que lá tem muita gente morando, é uma população de São Paulo inteira. Se não inserir essa população nesses processos, eles vão fracassar. A Amazônia tem um potencial enorme para produção de serviços ambientais, por exemplo: pagar pelos serviços de proteção aos mananciais de água...

Há especialistas que criticam esse processo de remuneração porque acaba que o morador vai receber dinheiro sem produzir...
Paulo Amaral – O benefício direto é para quem produz e conserva. É uma forma de proteger, conservar, valorizar. Só se conserva aquilo que tem valor e quanto mais valor, mais cuidado a região terá. Esses povos tradicionais (índios, quilombolas...) são fundamentais para a Amazônia justamente por isso. É só olhar o mapa e verificar: as terras que têm dono são protegidas, produtivas.

Considera-se, genericamente, o agronegócio como um vilão da floresta. É isso?
Paulo Amaral – Hoje as áreas abertas na Amazônia são suficientes para atender a demanda de grão e de gado. Há 24 milhões de hectares desmatados, bastante para atender a demanda do mercado. O agronegócio pode restaurar essas áreas, recuperar parte delas. O governo pode dividi-las e criar infraestrutura, abrir estradas somente onde há áreas desmatadas, por exemplo. Para que elas possam ser um polo de produção.

O Manejo Florestal Comunitário, então, é uma luz no fim do túnel para as gerações futuras?
Paulo Amaral – Envolver todos os atores é, sim, um elemento fundamental para a conservação das florestas.

*Fotos: Igarapé do Arquipélago de Bailique, na Amazônia (Amelia Gonzalez)
Paulo Amaral, pesquisador do Imazon (Arquivo pessoal)

http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/so-e-possivel-preservar-florestas-se-os-povos-tradicionais-forem-ouvidos.html

No Fórum das Águas, sugestões para se lidar com esse recurso em tempo de escassez


Tudo corria muito bem naquela região onde a água jorrava das torneiras, dos chuveiros, e permitia até que indústrias e cidadãos comuns tivessem com ela uma relação de desrespeito. Usava-se água para tudo, até para diluir esgoto, lavar minério, calçadas e carros. Os banhos demoravam muito tempo e ninguém se preocupava em fechar a torneira enquanto ensaboava os pratos. Ligava-se a máquina de lavar roupas quase diariamente naquela terra da abundância.

Até que alguém começou a perceber que os rios não estavam mais tão caudalosos e que as chuvas caíam em menor quantidade do que de costume. O alerta vermelho se acendeu quando veio um longo período de estiagem. E a terra da abundância precisou mudar tudo. Hábitos, governança... Começara o tempo da escassez.

Não estou contando uma história de ficção, como vocês já devem ter descoberto. Essa região existe e se chama Região Sudeste do Brasil. Quem podia imaginar que a terra da fartura e da abundância de água, um dia iria ter que lidar com a falta ou o medo da falta desse bem tão precioso para todos nós? É o que está acontecendo. E não é só em São Paulo, com o Sistema Cantareira. Na verdade, o fenômeno que está preocupando os paulistas serviu para que os mineiros abrissem os olhos: se está acontecendo ali tão perto, o problema pode se espalhar. É melhor, então, se precaver, adotar uma política para a escassez.

Foi esse o tom do Fórum das Águas que está terminando hoje em Inhotim, a poucos quilômetros da cidade mineira de Brumadinho, para a qual fui convidada a assistir. A iniciativa é do Consórcio Intermunicipal da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba e do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) e a ideia foi criar ali um espaço para troca de informações. Representantes de indústrias, acadêmicos, cidadãos organizados em associações, todos bem aparelhados com dados e sugestões.

E a cada palestra, a sensação que ficava na plateia era de que realmente estamos vivendo um tempo novo, quando é preciso discutir detalhes e lembrar de nuances que nunca foram alvo de preocupação. Um professor veio do Ceará, terra historicamente vítima da seca, para dar sua contribuição calcada na vasta experiência que ganhou ao lidar com o problema. Roberto Bruno Moreira Rebouças, da Universidade Estadual do Ceará, é geógrafo, atualmente trabalha na Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos, e apresentou números que causam desconforto aos mais sensíveis: em 2009 os cearenses tinham 81% de armazenamento de água e essa porcentagem caiu para atuais 27,91%.

“Se não fosse a transferência do Rio Jaguaribe, o rio que já recebeu o triste atributo de ser o ‘mais seco do mundo’, a região metropolitana do Estado já estaria em colapso”, contou ele, dando uma boa dica. Outra tecnologia que deu certo foi a instalação de adutoras de montagem rápida, que os cearenses apelidaram de “tecnologia de guerra” porque foram montadas com tubos doados após a Guerra do Iraque. Não deixa de ser...

Mas não existe uma única solução e, acima de tudo, garantiu o professor Rebouças, é preciso trazer para o processo decisório a participação dos usuários da água (empresas e cidadãos comuns). “Se não fizer isso, não vai ter sucesso”.

Essa preocupação já está em lei. O Plano Nacional de Recursos Hídricos, estabelecido pela Lei 9.433/97 e aprovado pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos em janeiro de 2006, prevê a criação de Comitês de Bacia para decidirem sobre quando, quanto e para quê cobrar pelo uso da água (veja aqui). Os Comitês de Bacia, no entanto, não funcionam como deveriam, na opinião do ex-ministro do Meio Ambiente e engenheiro florestal José Carlos Carvalho (foto ao lado). Em entrevista na hora do café, Carvalho disse aos jornalistas que se os comitês estivessem funcionando, essas pessoas, e não os governantes, é que deveriam ter decidido o pacto de uso do Rio Paraíba do Sul (veja aqui).

“O Brasil conseguiu construir uma lei de gestão das águas extremamente avançada. O problema brasileiro é que normalmente nossas leis terminam no enunciado. Se tivesse um Comitê de Bacia funcionando, essa tarefa seria dele. Porque quando começa a escassez, surge também a necessidade de uma coisa que é o papel-chave do Comitê: alocação de água. Mas acho que daqui para a frente, por conta da escassez, os comitês vão ter que exercer o papel que não vinham exercendo”, disse o ex-ministro.

Carvalho traçou uma linha histórica e lembrou que até a lei de 1997, água no Brasil era ligada à energia e o assunto era da alçada do Departamento Nacional de Água e Energia (Dnae). A legislação criada no fim do século, no entanto, é bem clara: o uso da água para o abastecimento público é prioritário.

“As mudanças climáticas estão alterando o ciclo biológico, e nesse desdobramento vem a escassez. Mas o Brasil não está se preparando, é preciso fazer mitigação e adaptação. Nós só não tivemos apagão até agora porque o país está crescendo menos”, disse Carvalho, expondo um dos paradoxos mais contundentes de nossos tempos. O crescimento irresponsável, pouco atento à necessidade de se levar em conta investimento em inovações que adaptem os processos industriais à finitude dos recursos naturais, pode ser solução apenas para quem ainda está ligado ao business as usual.

Hora de pensar muito, por exemplo, se as hidrelétricas a fio d'água, aquelas que não dispõem de imensos reservatórios, são mesmo a melhor opção. Quem levantou a questão foi Marcelo de Deus, gerente da Cemig, que apresentou um painel sobre a visão e a experiência do setor elétrico no período de estiagem. Sem os reservatórios, afirmou ele, o jeito é usar as termoelétricas, muito mais poluidoras. E quanto mais poluição de gases do efeito estufa, como sabemos, mais mudanças climáticas (traduzidas sob a forma de secas, tempestades, furacões etc).

“Setenta e quatro por cento da matriz de produção do sistema elétrico brasileiro são hídricos e as termoelétricas equivalem a 18%. Nos próximos cinco anos vamos crescer mais em hidrelétricas, mas as fontes estão se diversificando também, entre eólica, biomassa, solar. Só que se a economia reagir vamos ter que explorar mais os reservatórios e estressar o sistema. Este ano, o período da chuva foi pior do que o pior já registrado, em 1971”, disse ele.

A proposta do executivo é aumentar a curva de segurança para operar os reservatórios no momento de crise, mas ele mesmo admite que essa não é uma decisão de um só. De novo: é hora de dar força para os comitês de bacia. Presidente do Consórcio Intermunicipal da Bacia do Rio Paraopeba (Cibapar) e vice-prefeito de Brumadinho, Breno Carone foi um dos organizadores do Fórum e recebeu os jornalistas em sua casa para uma conversa antes do evento. Jovem pai de duas crianças, contou-nos que levou os filhos para uma barqueata no Rio Paraopeba com o objetivo de plantar mudas pelo menos em parte de suas margens para conscientizar a população de que é preciso ajudar a cuidar.

Enquanto ele contava essa história, o filho prestava atenção. Pensei que o maior proveito da barqueata quem teve foi aquele menino, assim como as crianças que moram à beira do Paraopeba. Diferente de nós, adultos, que vivemos em tempos de abundância, essa nova geração cresce acostumada à escassez. E vai conseguir usar sua criatividade, dom que pertence aos humanos, para conviver com isso. É no que acredito, e é de onde tiro a certeza de que esses fóruns, conferências, seminários, enfim, encontros para debater sobre as mudanças climáticas, são muito profícuos.

http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/no-forum-das-aguas-sugestoes-para-se-lidar-com-esse-recurso-em-tempo-de-escassez.html

Ambientalistas vão pedir à ONU mais regulação sobre direitos ao alto-mar





Em janeiro, quando 2015 estiver começando, ambientalistas, comissões independentes e representantes de organizações não-governamentais do mundo todo estarão se organizando para fazer uma pressão sobre a ONU no sentido de anexar alguns pontos na Convenção sobre os Direitos do Mar assinada em 1982. Essa foi uma das deliberações do Congresso Mundial de Parques que aconteceu em Sydney, na Austrália, de 12 a 19 de novembro, com mais de 600 representantes de 170 países. Quem me contou foi a ambientalista e consultora Eleanor Mitch, especialista em governança ambiental e inclusão social, que já trabalhou no Comitê Olímpico do Rio de Janeiro, no Jardim Botânico, e esteve em Sydney para apresentar quatro estudos.

Conversamos longamente na semana passada, e Eleanor contou-me alguns detalhes interessantes do que aconteceu no evento. Por que esse encontro foi importante nesse momento? Porque se trata de mais uma iniciativa para a sociedade civil se unir e mostrar que pode contribuir, e muito, para soluções locais e nacionais que surgem em resposta às mudanças climáticas. Mais ou menos assim: ok, nós respeitamos e reconhecemos os esforços dos líderes das nações que ainda estão reunidos em Lima, na COP 20, mas queremos colaborar mais.

Com esse espírito foram construídos vários stands no local do evento, e um deles era, especificamente, sobre os oceanos, contou-me Eleanor:

“Foi a primeira vez, desde que o congresso se reúne (o evento acontece a cada dez anos desde 1962 e o primeiro foi na África do Sul) que construíram um stand somente sobre oceanos. A questão é que há vários anos muitas ONGs estão tentando fazer pressão para que haja um acordo sobre governança ou direito do alto-mar, esse território tão selvagem. A convenção que existe hoje indica liberdade de navegação, de pesca, de extração de recursos em alto-mar, mas a ideia é passar a regular mais. Há quem defenda uma nova convenção, mas seria difícil exigir outro acordo entre os 192 países. Como o texto deixa espaço para anexos, é o que se está querendo cobrar da ONU. O Global Ocean Commission, por exemplo, está organizando uma petição on-line que já tem nomes como do político costa-riquenho José Maria Figueres, o ex-presidente da OIT Pascal Lamy e do ex-ministro do Desenvolvimento brasileiro Luiz Furlan. E a Promessa de Sydney, pactuada no final entre os países que participaram do congresso (veja aqui), pode ser também uma forma de pressão importante”, disse a ambientalista.

Eleanor foi a Sydney na condição de especialista em governança ambiental, e os estudos que apresentou tiveram o objetivo de mostrar que é possível conseguir uma administração compartilhada que seja boa para todos os lados envolvidos. Um desses estudos foi o do Parque Natural Municipal Paisagem Carioca, criado pela Prefeitura do Rio em junho de 2013 (veja aqui), caso de gestão participativa explícita e que, segundo ela, tem dado muito certo:

“Foi difícil, sob o ponto de vista de gestão, administrar esse parque, pois tem a participação do Estado, do Município, do Exército... Mas é um caso muito emblemático de um belo trabalho que pode ser feito juntando as pessoas. O parque foi protegido porque associações de moradores foram à luta e envolveram pessoas das favelas próximas que, hoje, estão muito bem, trabalhando como guias turísticos. Teve um lado ruim, da remoção de algumas casas, mas mesmo isso foi bem feito, a Prefeitura ergueu um prédio ali perto, que recebeu o Selo Azul da CEF, de construções sustentáveis. Hoje eu consigo ouvir de um dos moradores do Morro da Babilônia, por exemplo, que ali onde há uma linda mata era local de matança dos bandidos”, contou-me Eleanor, que anda preocupada com o fato de uma empresa estar querendo construir um teleférico no local.

A ambientalista elogia a organização do congresso. Foram dias de trabalho duro, de 9h às 21h30. Os organizadores possibilitaram aos participantes, inclusive, alguns passeios a locais preservados da Austrália. Ela optou por conhecer Ayers Rock, Patrimônio Mundial da Humanidade, um dos monumentos mais impressionantes do país, o segundo maior monolito do mundo e que, segundo Eleanor, também é um exemplo bem-sucedido de gestão compartilhada. Os aborígenes australianos receberam do governo a propriedade em 1985 e arrendaram de volta ao Estado como Parque Nacional.

Povos protetores
A importância dos povos tradicionais como protetores de áreas preservadas foi um dos focos principais do congresso, citada várias vezes por Eleanor em nossa conversa. Ela presenciou a apresentação de guardas florestais africanos que estavam ali para cobrar de seus governos melhores condições de trabalho. Do Congo vieram alguns guardas que contaram aos participantes do evento sobre seu receio com relação ao aumento de crimes contra animais selvagens.

“Eles chegaram a levar uma pessoa que deu seu depoimento dizendo que três de seus irmãos tinham sido mortos por pessoas que fazem comércio ilegal de animais. Estavam ali para saber se poderiam contar com apoio fora de seu país”, contou-me Eleanor.

Nesse instante lembrei-me da entrevista que fiz com Paulo Amaral, do Imazon (veja aqui) em que ele também chama a atenção para a importância dos povos tradicionais para a proteção das florestas. Eleanor se impressionou, por exemplo, com o poder demonstrado pelos maoris, povos tradicionais da Nova Zelândia, que apresentaram alguns trabalhos no congresso. “Eles tinham uma postura de empoderados. Não gosto muito dessa palavra, mas não vejo outra maneira de lhe descrever o que percebi sobre os maoris.”

Só por curiosidade, lembramos que a Nova Zelândia está entre os sete países com IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) mais elevados do mundo, segundo o relatório do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

Existem hoje no planeta, segundo informações do site do WWF, 209 mil áreas protegidas, cobrindo 15,4% das terras e só 3,4% dos oceanos. São terras que fornecem serviços ambientais imprescindíveis à nossa sobrevivência, como água e alimento. Como têm bastante mata, esses espaços servem também como proteção contra desastres ambientais. É, por isso tudo, bastante racional e lógico que se preserve cada vez mais áreas, mas há um “outro lado” da questão: os defensores do crescimento a qualquer custo consideram esses paraísos como pontos improdutivos do planeta.

Compromisso brasileiro
Eleanor me conta que viu vários brasileiros no congresso, e leio no site do WWF que o Brasil tinha uma das maiores delegações presentes, com 75 pessoas. É bom lembrar que são ativistas de ONGs, nada tem a ver com o governo. Nas Promessas de Sydney, estamos lá com o compromisso de proteger 5% de nossa área costeiro-marinha e consolidando a proteção de 60 milhões de hectares na Amazônia até 2020.

No último dia do Congresso, segundo Eleanor, debateu-se sobre comunicação. O artigo do jornalista Thomas Friedman, do “The New York Times” (veja aqui, em inglês), em que ele alerta para o fato de que estamos no meio de “três mudanças climáticas: digital, ecológica e geoeconômica” serviu como base para a discussão. Nesse artigo, o jornalista cita o estresse hídrico pelo qual São Paulo está passando. E comenta sobre o distanciamento dos governantes das decisões que poderiam atenuar o problema.

Estive pensando exatamente nisso na manhã desta segunda-feira (8), quando, em conversa com o taxista que me levou ao Centro, ele fez questão de me dizer que não acredita em mudanças climáticas e que São Paulo já, já vai ter sua água de volta. “É só chover um pouco mais”, comentou ele, com uma certeza que me causou espanto.

O distanciamento não é só dos governantes, portanto. Ainda há cidadãos comuns que não acreditam na necessidade de mudança de hábitos para preservar os recursos. Benditas sejam, portanto, iniciativas como a da Internacional Union for Conservation of Nature (IUCN), ONG que organizou esse congresso na Austrália, e que sirvam para estimular cada vez mais consciência na sociedade civil.

Fotos: MC1 Tim Miller/Marinha dos EUA/AFP e Amelia Gonzalez/G1
http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/1.html

O pequeno impacto da conferência sobre clima da ONU nos cidadãos comuns

O pequeno impacto da conferência sobre clima da ONU nos cidadãos comuns

Gosto de bater papo na rua sem compromisso, um hábito que carrego dos tempos de criança moradora de subúrbio carioca. É diferente de jogar conversa fora. Num bate-papo na esquina, com vizinhos, amigos que se encontram por acaso, nem tudo é dispensado. Às vezes surgem ideias mirabolantes que merecem, ao menos, uma gota de atenção.

Foi assim nesta quinta-feira (11) à noite, quando me deixei ficar um tempo conversando com dois vizinhos. Como eu estava presente, e eles sabem que meu foco é a sustentabilidade, a conversa girou sobre a COP-20 (reunião da ONU sobre o clima que está acontecendo em Lima), as emissões de carbono, a melhor fonte energética... Alguém sugeriu que a energia nuclear seria a melhor, mais limpa.

– É, mais quando dá defeito, causa um estrago tremendo. Além desse risco, tem o lixo nuclear. Ainda não se sabe o que fazer com ele.

– Sabe o que eu pensei? Por que eles não dão um jeito de jogar esse lixo no espaço?

– É uma ideia! Será que essas experiências espaciais todas, como a última, que conseguiu botar uma sonda num cometa em movimento, já não seriam um jeito de tentar arranjar um território extra para a Terra? Uma espécie de puxadinho... (risos). No início vão mandar o lixo nuclear para lá, depois vão começar a mandar gente mesmo, quando não couber mais ninguém aqui nesse espaço.

E assim nos despedimos. Foram pensamentos soltos, livres, sem compromisso, entre vizinhos. Mas são pessoas que acompanham as notícias e que não estão muito impressionadas com os resultados desses fóruns internacionais de negociação de regras e implementação de limites para as emissões de carbono, as COPs – conferências da ONU sobre mudanças climáticas.

Também em Lima, onde os negociadores ficaram hospedados durante duas semanas (o encontro termina nesta sexta, dia 12), a COP-20 parece estar causando pouquíssimo rebuliço entre os cidadãos comuns. De lá, uma amiga me responde à pergunta sobre a participação popular na Conferência:

“Ih, está bem lento. Poucos comentários, poucas notícias na televisão, muito pouco. Uma pena para um evento de tamanha importância e que tem tanta estrutura envolvida”.

Estive olhando os jornais locais, e o que mais chamou a atenção dos editores foi o tremendo vacilo cometido pelos ambientalistas do Greenpeace, que maculou um patrimônio cultural peruano, as Linhas de Nazca. O modelo de protesto da organização inclui sempre subir em lugares altos para pendurar suas faixas e todo mundo ver. Mas ali era proibido, e o presidente Kumi Naidoo foi a Lima e pediu desculpas pessoalmente pelo deslize.

Fora isso, o que mais me impressionou foi a declaração do secretário da Grã-Bretanha Ed Davey, nesta quinta (11), na reunião de ministros da COP-20, quando ele disse que o risco climático vai afetar o valor das participações em empresas de combustíveis fósseis. Davey falou ainda que era hora de reconhecer que as economias vão se afastar dos combustíveis fósseis se houver um acordo global para baixar as emissões de carbono e que, por isso, carvão, petróleo e gás não serão mais uma aposta financeira segura.

Sir Davey talvez não tenha se dado conta de que estava na Conferência das Partes de número 20, o que significa que há vinte anos essa conversa está girando entre os países. Seu alerta soa repetitivo e pode justificar um pouco a má vontade das pessoas com tais reuniões. Mas corrobora os dados de uma das múltiplas pesquisas e análises sobre meio ambiente que parecem brotar do chão só em época de COP. A ONG Carbon Tracker, segundo o “Valor” desta quita, fez um relatório em 2011 em que ficou claro que, se os governos realmente adotarem um acordo para baixar as emissões, o risco associado a investimentos em petróleo, carvão e gás será grande.

Por um lado, parece um disco quebrado tocando a mesma faixa várias vezes. Mas, de verdade, muita coisa já mudou desde a primeira COP, que aconteceu em Berlim, em 1995. Lá se falou pela primeira vez sobre cooperação internacional entre países ricos e países em desenvolvimento no sentido de se criar um jeito para ajudar os mais pobres a lidarem com desastres causados pelas mudanças climáticas. E aí está o Fundo Verde, que acaba de conseguir, na própria COP-20, mais US$ 230 milhões da resistente Austrália. Já há, portanto, prometidos até agora, US$ 10 bilhões dos US$ 100 bilhões que a ONU pretende arrecadar até 2020. Por enquanto, só promessas. Mas é um avanço.

O culpado
Por trás dessa iniciativa de se criar um fundo com participação de países ricos está o debate sobre quem tem a culpa nas emissões. É uma discussão que vem desde o início e está longe de ser consenso. Há quem ponha a responsabilidade integralmente sobre os ombros dos países ricos, cujas populações há muito tempo vêm se beneficiando do conforto proporcionado pelos produtos industrializados. Por outro lado, já ouvi, por exemplo, da ex-ministra da Noruega Gro Brundtland, que entrevistei quando esteve no Brasil em 2007, que os países pobres também se beneficiaram da tecnologia promovida pelos ricos. Ela é uma voz ativa que defende a participação de todos, igualmente, na luta para baixar as emissões de carbono.

Mas o debate vai continuar. Exatamente como aconteceu com a COP-15, de 2009, em Copenhague, também em Lima, na noite do último dia, surgiu um texto diferente daquele que vinha sendo meticulosamente escrito pelos negociadores há dias. Brasil, China, Índia e África do Sul convocaram uma reunião de emergência para debater a questão e, de novo, parece que estamos assistindo ao mesmo filme de seis anos atrás.

Ainda não acabou a reunião, mas pelo que li até agora nos sites, dificilmente sairá de Lima um texto-base para a negociação de um acordo global de emissões a ser assinado ano que vem em Paris, como era previsto. O mundo ainda está dividido em dois e agora o termo criado para tentar unificar essa divisão em prol de um acordo é “responsabilidades comuns, mas diferenciadas”. Em entrevista ao “The Guardian”, jornal que cobre o evento em tempo real, a ministra do meio-ambiente da Alemanha, Barbara Hendricks, disse que ainda há muitos obstáculos no caminho até Paris (na COP-21).

“Até que ponto vamos conseguir alcançar a capacidade de vinculação legal (sobre as emissões de carbono) em Paris?”, perguntou ela.

Ninguém sabe responder. E, mais uma vez, os líderes vão ficar devendo uma negociação do clima. Ainda bem que este não é, pelo menos por enquanto, assunto que acabe em guerra – jeito que os estados têm de resolver suas diferenças. Friso: pelo menos por enquanto.

Perdoem minha reflexão pessimista, mas não sei se as próximas gerações poderão dizer o mesmo quando a água estiver, realmente, escassa em todo canto.

Mas aí, segundo meu vizinho criativo, o “puxadinho espacial” já pode ter resolvido o problema. Antevejo nos meus pensamentos soltos, aeronaves-carros-pipa trazendo água sabe-se lá de qual galáxia para a Terra. Vai custar caro, mas...





Fotos:Negociadores reunidos na COP-20. (Eduardo Carvalho/G1)Participante da COP observa mapa com a temperatura dos oceanos (UNFCCC)Representantes dos governos de Honduras e Filipinas e membros da ONG Germanwatch participam de painel na COP-20 (Eduardo Carvalho/G1)

Brasil ainda tem processos industriais que desrespeitam meio ambiente e população

Endosulfan é um inseticida potente, altamente tóxico, que age no sistema nervoso de insetos e de humanos. Já foi banido em 62 nações, embora continue sendo usado em países como Índia e Austrália. Aqui no Brasil, a Anvisa proíbe o uso dessa substância desde 2010, em norma que também exige sua não comercialização desde 2013.

No entanto, um estudo realizado por pesquisadores do Instituto Evandro Chagas (IEC) detectou a presença de endosulfan no fundo de igarapés nas cidades paraenses de Acará, Moju, São Domingos do Capim e Tomé Açu. O veneno foi, e possivelmente ainda é utilizado largamente pela indústria do dendê na região, afetando sobretudo populações quilombolas.

Quem me contou isso foi Marcelo Lima, pesquisador e especialista em toxicologia ambiental do IEC, com quem conversei longamente na semana passada. Eu queria saber dele em que pé estão as investigações sobre o vazamento de caulim no igarapé Curuperê, em Barcarena, também no Pará. É um crime ambiental causado pela indústria que beneficia bauxita na região. Aconteceu pela primeira vez no início do século mas, de lá para cá, novos vazamentos têm sido constatados (veja aqui).

Marcelo respondeu-me sobre o vazamento de caulim e nossa conversa se prolongou. A conclusão é que há um processo industrial no Brasil que ainda desrespeita o meio ambiente e as pessoas que moram no entorno – sobretudo no delta amazônico, onde há muitas fábricas devido à sua enormidade de água. Se você, leitor, não se surpreende com isso, devo dizer que eu também não. A gente se acostuma com esses abusos, mas não deveríamos nos acostumar. Por isso acho importante levantar a questão, informar e, de certa forma, dar apoio a quem está na ponta da cadeia, como a equipe do IEC e de outros institutos de análises que tentam, de forma legal, denunciar os crimes para que alguma solução seja tomada. Abaixo, a íntegra da conversa com o professor Marcelo Lima.

A primeira vez que noticiei um vazamento de caulim em igarapé de Barcarena foi em 2009, no Razão Social*. A comunidade se organizou de lá para cá, há hoje um Fórum na cidade, mas recentemente li sobre outro vazamento na região. O senhor tem acompanhado esse caso, sabe que a empresa Imerys já foi penalizada. Mudou alguma coisa?
Marcelo Lima – Quando a Imerys deixou vazar caulim no igarapé pela primeira vez ela assumiu vários compromissos com o Ministério Público. Uma das providências foi construir um duto que passa por cima do igarapé e vai até a Pará Pigmentos, outra empresa do grupo que fica a cerca de 3 km da Imerys. Lá, os efluentes se juntam e são lançados, pelo tal duto, uma espécie de emissário submarino, no meio do Rio Pará.

Mas isso resolve o problema?
Marcelo Lima – A diferença é que o Rio Pará é quase um oceano, de grande volume, o efluente se dilui mais, só isso. Foi uma mudança de estratégia da empresa, mas ela tinha se comprometido em mudar seu processo industrial. Só que de 2007 para cá, quando foi feito esse compromisso, houve mais seis vazamentos de caulim que acabaram atingindo novamente o Curuperê. Mais recentemente, em maio, houve ainda outro vazamento, dessa vez uma enorme carga, provocado por uma fissura que ocorreu numa das bacias de efluentes. Demorou mais de uma semana até que fosse controlado.

Já vi fotos desses vazamentos, o igarapé fica todo branco. Qual o prejuízo causado ao meio ambiente, às pessoas?
Marcelo Lima – Existe um passivo de acúmulo de substâncias do caulim que está no fundo desses igarapés. Mesmo que nenhum outro vazamento ocorra, isso não garante que alguma coisa acabe liberando esse caulim. Tem um debate muito forte sobre o mal que essa substância causa, porque a empresa diz que o caulim é uma pasta não tóxica. Mas a questão é que não é o caulim, e sim os efluentes do caulim, resíduos do processo industrial, que saem muito ácidos da fábrica, com elevados níveis de alumínio, chumbo, bário. Esses componentes podem causar danos à vida aquática e aos humanos.

As pessoas que moram à beira do rio bebem aquela água?
Marcelo Lima – Quando se pergunta, eles dizem que não, mas um ou outro acaba soltando, dizendo que bebem. De qualquer forma, é uma água usada para lazer, onde eles tomam banho. Em 2006, antes mesmo do primeiro acidente, eu fiz um relatório onde alertei para o fato de que ter uma bacia de efluentes industriais a 50 metros da população é um grande risco. Ou se tira a população dali, ou se tira a fábrica.

Mas Barcarena é um polo industrial, não?
Marcelo Lima – Sim. Com o recurso que a empresa teve que liberar por determinação do Ministério Público estamos fazendo uma dosagem toxicológica das pessoas da região. Não se pode dizer que existe só um contaminante porque Barcarena é um complexo, com várias indústrias. É um pouso de potenciais problemas, população humana misturada com fábricas. O IEC hoje é uma referência nesses estudos, somos o principal laboratório na área de contaminantes orgânicos e inorgânicos do país e temos uma sessão de meio ambiente que foi criada em 1992, logo após a Rio-92. Na época era um grande tabu: ter necessidade de uma sessão de meio ambiente na área de Saúde. Mas a sessão foi criada com uma grande pesquisa que até hoje não terminamos: do contágio de mercúrio na Amazônia.

O que vem dificultando esse estudo? 
Marcelo Lima – A questão é que o Brasil não tem referenciais, não se fez até hoje um inquérito do país para entender qual o nível normal de acúmulo. Isso nos obriga a buscar referências em outros países, que nem sempre refletem a nossa realidade e pode causar alarmismos desnecessários. Mas é comprovado que o nível de mercúrio médio na região da Amazônia é maior do que qualquer outro do mundo. A diferença é que nosso padrão de normalidade é diferente de outros países. Na Europa, por exemplo, eles ficam apavorados quando têm 2ppm (partículas por milhão), mas aqui a nossa média é acima de 10ppm com frequência.

A ex-candidata à presidência Marina Silva, por exemplo, desenvolveu uma série de sintomas devido à exposição ao mercúrio durante o tempo que foi seringueira...
Marcelo Lima – Como pesquisador eu não sei dizer se ela foi contaminada ou se tem no organismo uma quantidade de mercúrio igual à de toda população do Acre. A questão é que enquanto não se mudam esses processos industriais vai continuar havendo poluição ambiental. Tem uma aluna minha do mestrado que está conduzindo uma pesquisa em Barcarena que vai ficar pronta por esses dias sobre poluentes orgânicos nos rios da cidade, e vem muita surpresa aí. Mas, no Brasil, não é fácil fazer esse tipo de análise de contaminantes, por isso a notificação de uma exposição ambiental é quase inexistente. Notifica-se malária, dengue, mas não há notificação ambiental. Temos tido um grande apoio do Ministério da Saúde, mas só o dinheiro da Saúde para resolver os problemas todos envolvendo contaminantes não é suficiente.

Barcarena, então, deve ser um foco de poluição ambiental...
Marcelo Lima – A cidade fica no delta amazônico, o volume de águas é gigantesco, e as empresas jogam seus resíduos sem tratamento nessa água, ali eles ficam diluídos. Mas quero lhe dizer que hoje já há sinais de que esse ambiente aqui não está mais suportando. Há ainda o grande desmatamento na região do Mato Grosso que está invadindo o Pará. Se olhar o mapa, o desmatamento está justamente na área das nascentes dos grandes rios amazônicos, portanto a indústria de soja, dendê, está justamente nessas áreas. E não é difícil dizer que estão usando agrotóxico direto. A indústria do dendê, por exemplo, é um problema aqui.

O que ela vem causando?
Marcelo Lima – O Ministério Público do Estado pediu que fizéssemos uma avaliação em populações tradicionais que estariam sendo afetadas pelo agrotóxico usado pela indústria do dendê em Mojum, Acará, São Domingos do Capim e Tomé Açu, todas cidades paraenses. No ano passado fizemos um trabalho preliminar e comprovamos a presença persistente de endosulfan no fundo dos igarapés. Estive no local e é um cenário triste, as populações quilombolas estão afogadas naquelas plantações de dendê. Elas comprometem o uso da água e uma série de outras coisas.

Aqui no Rio de Janeiro há um movimento tentando recuperar o Rio Carioca, que recebe uma enorme quantidade de esgoto, portanto de bactérias. O que precisa ser feito para tentar resolver esse tipo de situação, que deve ocorrer no país inteiro?
Marcelo Lima – Os investimentos em pesquisa ainda são poucos, precisam ser ampliados. Critico sobretudo as agências de fomento, que investem pouco aqui na Região Amazônica. O país precisa de muito mais gente olhando para isso, de tecnologia avançada para detectar o problema porque as indústrias geram poluentes dos mais diversos, e até que a gente consiga detectar demora. Hoje, temos aqui boom de algas, os rios estão cheios de bactérias que produzem toxinas. O IEC faz seu dever de casa, atende a saúde pública brasileira. Temos o único laboratório com nível de biosegurança 3 plus funcionando no país, por isso nós é que estamos manipulando o sangue para detectar se há vírus ebola. Mas temos potencial para fazer muito mais.

*Suplemento sobre sustentabilidade editado no jornal "O Globo" de 2003 a 2012

Fotos:Peixes mortos por poluição em rio. (Walter Paparazzo/G1)Marcelo Lima, Instituto Evandro Chagas (Divulgação)
http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/brasil-ainda-tem-processos-industriais-que-desrespeitam-meio-ambiente-e-populacao.html

Ataque hacker coloca anúncios em sites para faturar com cliques.

Sem invadir nenhum site e nem o computador do internauta, hackers brasileiros estão colocando anúncios "extras" em páginas para ganhar dinheiro com os cliques na publicidade. Os criminosos interferem na operação de um serviço básico da internet para redirecionar serviços usados por sites e carregar a publicidade no lugar do conteúdo original.

A ação dos hackers é bem visível, porque a publicidade chega a interferir com conteúdo do site, especialmente quando é utilizada uma versão para telas menores. Nesses casos, a publicidade fica desproporcional ao tamanho da página. 
Se ninguém reclamar, os donos dos sites e os anunciantes não ficam sabendo desse carregamento ilegítimo de publicidade. Funciona assim:

- os hackers criam cadastros em serviços de anúncios para sites de internet. Isso permite que eles lucrem com cliques em publicidade sem contato direto com anunciantes. Em seguida, eles criam um código que carrega esse anúncio;
- os criminosos interferem com o DNS (sigla em inglês para "Sistema de Nomes de Domínio"). O DNS funciona como "102" da internet. É ele que diz ao computador qual o número IP de um site, como "g1.com.br", da mesma forma que o 102 ou uma lista telefônica relaciona um nome a um número de telefone. Assim como no sistema telefônico, os computadores da internet só se conectam por números;
- o objetivo dos hackers é redirecionar endereços carregados por sites para medir audiência para colocar o código de anúncio deles no lugar. Há dois modos de interferir com o DNS para isso:
- Modo 1: modificando a configuração de DNS do internauta para usar um serviço de DNS do próprio criminoso. Isso é feito por meio de vírus ou ataque ao roteador/modem de internet da vítima.
- Modo 2: tirando proveito de aspectos técnicos da rede, os hackers fazem o DNS do provedor de internet "errar" e informar um número diferente do correto. Esse erro fica no ar apenas algumas horas até que a memória temporária do DNS seja renovada e ele busque novamente o endereço IP correto, anulando a modificação;
- para que o arquivo falso continue sendo carregado após o DNS voltar ao normal, o código de publicidade dos hackers informa ao navegador da vítima que ele é "válido" até dezembro de 2015. Com isso, o navegador não tenta recarregar esse arquivo e a publicidade continua sendo exibida, mesmo com tudo resolvido;
- basta limpar o cache do navegador para recarregar o arquivo e a publicidade não estará mais lá, o que resolve o problema na maioria dos casos;
- o ataque não precisa envolver nenhuma invasão ao computador da vítima e nem ao portal de internet.

Embora os hackers possam atacar internautas com vírus para fazer essa alteração nas páginas, há evidências de uma alteração na rede, o que significa que o problema está no serviço do provedor de internet ou no equipamento (modem-roteador).

Por esse motivo, o G1 procurou as principais operadoras de internet fixa do país – NET, Vivo, Oi e GVT – para saber se elas têm alguma informação sobre esses ataques.

A Oi afirmou apenas que "segue todas as recomendações nacionais e internacionais de segurança de informação".

A Vivo disse que realiza um monitoramento e um trabalho preventivo constante em sua rede. A operadora declarou que não detectou nenhuma alteração em seus servidores de DNS e que não há registro de incidentes de DNS em equipamentos de clientes há dois anos.

O comunicado da NET informa que a empresa "adota as melhores práticas mundiais de segurança na internet e monitora continuamente todos os servidores de resolução de nome (DNS) utilizados pelos clientes do seu serviço de banda larga. A empresa alerta que tentativas de fraude online são frequentes e os clientes precisam tomar precauções com arquivos e mensagens recebidas pela internet, verificando sempre se são realmente de fonte confiável, além de manter sistemas operacionais e ferramentas de detecção de pragas virtuais atualizados".

A GVT não quis comentar o caso.

Solucionando o problema
Saiba como limpar o cache do seu navegador:

Internet Explorer: clique na engrenagem no canto superior direito da janela do navegador Na aba "Geral", clique no botão "Excluir..." na parte inferior. Certifique-se de que pelo menos "Arquivos de internet temporários e arquivos de site" esteja marcada e clique em "Excluir".

Firefox: clique no botão de menu (as três barras no canto superior direito) e clique em Histórico. Escolha a opção "Limpar dados de navegação" (essas etapas podem ser substituídas com a combinação de teclas "Ctrl-Shift-Del"). Em "Limpar este período", escolha "Tudo". Abra os detalhes e marque apenas "Dados off-line de sites". Clique em "Limpar agora".

Chrome: clique no botão de menu (as três barras no canto superior direito) e clique em Configurações. Clique em "Mostrar configurações avançadas". Na seção "Privacidade", clique em "Limpar dados de navegação". Em "Eliminar os seguintes itens", deixe selecionado "o começo". Na parte inferior, deixe marcado apenas "imagens e arquivos armazenados em cache".

Android: abra o menu do navegador com o botão no celular. Toque em "Mais" e depois em Configurações". No menu que aparece, toque em "Limpar cache".

Windows Phone (IE): abra o aplicativo, toque nos "..." para abrir o menu. Escolha "Configurações" e depois toque no botão "excluir histórico".

iOS (iPhone/iPad): Vá em "Ajustes". Escolha "Safari" e então "Limpar cache".

Prevenção
Como o ataque em "modo 1" ocorre com uma alteração na configuração do seu modem-roteador de internet, em alguns casos podem ser necessárias medidas de prevenção, como a alteração da senha. Consulte o seu provedor ou o manual do equipamento para saber como trocar a senha de administração.

Ainda com problema?
Caso os passos acima não eliminem a publicidade extra, entre em contato com o provedor de internet para verificar se suas configurações de DNS estão corretas. Essa verificação depende do modelo e marca do seu modem-roteador.

Como o cache do DNS é explorado
A exploração de características técnicas da rede e do DNS para realizar ataques é chamada de "envenenamento de cache do DNS". O ataque é possível porque a única segurança real do DNS contra respostas falsas é um número aleatório. Embora seja uma "loteria", o hacker pode fazer infinitas apostas. Se a resposta falsa chegar antes da verdadeira, ela provavelmente será aceita.

Outra maneira de se interferir com o DNS é alterando as configurações de rede do computador ou do modem-roteador de acesso à internet. O criminoso pode configurar o equipamento para usar um serviço de DNS que ele mesmo controla e não o do provedor de internet. Para isso, ele pode se aproveitar de equipamentos que estejam com senhas fracas ou que ainda estejam usando a senha de fábrica e com a administração aberta para a web. Em alguns casos, podem existir falhas no equipamento.

Até o momento, não há registro de uso de vírus para realizar essas alterações, o que significa que os modems-roteador podem estar sendo alterados por senhas fracas. No caso de ataques aos provedores, não há nada que o internauta possa fazer.

Há alguns anos
Esse ataque vem sendo realizado no Brasil pelo menos desde 2009. No entanto, os criminosos sempre redirecionavam sites para vírus ou para sites clonados de instituições financeiras. É a primeira vez que se tem notícia de redirecionamentos para carregar publicidade – uma tática já empregada por golpistas fora do país, embora não exatamente da mesma maneira.



Nesse caso da publicidade, os hackers não redirecionam o próprio portal e sim serviços de rastreamento que medem a audiência do site. Esse tipo de serviço é usado por várias páginas da web, o que permite aos criminosos carregar os anúncios em muitos endereços com apenas um único redirecionamento. 
Para diminuir a visibilidade do ataque, os criminosos restringiram a publicidade a sites de notícias, de futebol e de pornografia. É o uso de um termo em português ("futebol") nesse código que indica a origem brasileira da fraude.

http://g1.globo.com/tecnologia/blog/seguranca-digital/post/ataque-hacker-coloca-anuncios-em-sites-para-faturar-com-cliques.html